domingo, 25 de junho de 2017

QUANDO MORREM, AS CRIANÇAS VÃO PARA O CÉU?



"O amor de Deus pelas crianças é algo cristalino na Escritura, já encontrar  a "era da responsabilidade" é bem mais difícil."
          Há alguns anos, eu levei um grupo de estudantes universitários para a bacia amazônica a fim de compartilhar o amor de Cristo em algumas comunidades remotas. 
Após vários dias, deixei um pequeno grupo de estudantes em uma aldeia, e continuei em direção a outra. Depois de minha partida, uma jovem daquela comunidade perdeu tragicamente seu bebê de 6 meses, morte provocada pela desidratação e por uma doença desconhecida. Os pais, então pediram aos meus alunos que fizessem o funeral. Esses jovens de 19 e 20 anos não estavam preparados para o peso emocional e espiritual da situação, mas fizeram o melhor que puderam para confortar essa família, porém, todos sentiram o agudo fardo de responder às inevitáveis ​​questões teológicas decorrentes de uma perda tão difícil: 
    O que acontece quando as crianças morrem? Eles são salvos? O que dizemos para consolar os pais em suas dúvidas?
                         É natural, talvez até inevitável, que procuremos conforto na esperança de que Deus acolhe os pequenos no céu quando o tempo deles for dolorosamente cortado na terra. Embora a maioria dos cristãos afirme a doutrina do pecado herdado e confie que o perdão do pecado vem apenas através da fé pessoal em Cristo, também acreditam que Deus por ser bom e gracioso, lidará de forma misericordiosa neste caso, e considerará que apesar de nascer em pecado, esta criança é muito jovem para fazer uma profissão de fé. 
 É possível biblicamente afirmar que Deus salva crianças pequenas sem a necessidade de arrependimento do pecado e de expressar fé em Cristo?
Teólogos e líderes cristãos ao longo da história buscaram responder a esse problema nodoso. Agostinho e Ambrósio argumentaram que, uma vez que os bebês herdam a culpa do pecado, e não apenas a natureza do pecado, somente os bebês batizados seriam salvos. John Calvin e CH Spurgeon sustentaram que a eleição de Deus poderia se estender às crianças, e então elas já nasceriam predestinadas à salvação. Uma variação desta visão argumenta que Deus reconhece quem irá crer, então elas seriam salvas, mesmo que elas morressem antes de atingir a idade ou capacidade mental para crer.
               Essas visões podem fazer sentido teológico, mas muitas vezes não possuem suporte claro nas escrituras e faz as pessoas se sentirem desconfortáveis ao afirmar que elas sejam válidas para as crianças. 
              De todas as abordagens propostas para resolver este problema, a ideia de uma  "era da responsabilidade", se tornou uma das opiniões mais populares em um amplo espectro de evangélicos, pois afinal oferece uma solução sensata, e também abrangente.
                        O conceito da idade de responsabilidade, é que Deus não responsabiliza os filhos pela culpa de seus pecados, até que eles consigam uma percepção moral adequada de suas escolhas. Crianças que não chegaram a essa idade de responsabilidade irão para o céu, porque Deus não lhes impõe a culpa de seus pecados. Em outras palavras, Deus não responsabiliza as crianças por erros ainda não cometidos e erros que nem sabem que irão cometer.
               Esta posição teológica certamente é atraente por uma série de razões, mas há apoio bíblico para a noção de uma "era de responsabilidade"? 
Embora algumas passagens possam parecer afirmar a ideia, elas não a apoiam diretamente quando vistas em um contexto mais amplo:
Deuteronômio 1:39
"Vossos meninos, contudo, dos quais dizíeis que seriam levados cativos, vossos filhos que ainda não sabem discernir entre o bem do mal, entrarão na terra. Eu a darei a eles para que a possuam ".
          O contexto deste versículo relaciona-se com a geração rebelde de Hebreus que foram punidos com 40 anos de andanças no deserto. Deus proíbe que a geração rebelde entre na Terra Prometida, mas neste versículo Ele promete, não só permitir a entrada na terra, mas também  a dará aos filhos, porque eles "ainda não sabiam discernir entre o bem do mal".
         Como Deus não responsabilizava os filhos hebreus pelos pecados de seus pais, as pessoas usam esse verso como suporte para a idade da responsabilidade, mas o detalhe é que, nesta passagem, "crianças" se refere aos que eram naquela época muito jovens e não elegíveis para o serviço militar, ou seja, as pessoas com 20 anos ou menos. 
                     Embora a maioria dos adolescentes, certamente tenha muito tempo para amadurecer, parece improvável sugerir que eles não sejam, de alguma forma, moralmente responsáveis nessa idade.
Isaías 7: 15-16
"Ele se alimentará de coalhada e de mel até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem. Com efeito, antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, por cujos dois reis tu te apavoras, ficará reduzida a ermo"
            Esta passagem relaciona-se diretamente com a famosa profecia de que "a virgem conceberá e dará à luz um filho" ( Isaías 7:14 ). Estes versículos afirmam que o "menino" em sua juventude ainda não saberia discernir a diferença entre certo e errado. O autor bíblico sugere que haverá um período de tempo, antes que a criança tenha uma compreensão da moral. Infelizmente, esta passagem não pretende estabelecer os parâmetros para quando uma criança pode ser vista como moralmente culpada; em vez disso, o foco está na libertação vencida de Deus.
2 Samuel 12:23
"Mas agora que ele está morto, por que eu deveria seguir em jejum? Posso trazê-lo de volta? Eu irei até ele, mas ele não vai voltar para mim. "
            De longe, o lamento de Davi pela morte de seu filho primogênito com Bate-Seba, é o versículo mais familiar sobre este assunto. Enquanto a criança estava morrendo por conseqüência direta do pecado de Davi, David jejuou e orou com esperança de que Deus fosse misericordioso; mas uma vez que a criança morreu, ele parou de sofrer. David reconheceu que a única forma dele se reunir novamente com seu filho, era quando ele também viesse a morrer.
                 Embora este versículo ofereça enorme conforto pastoral e, talvez, até forneça algumas evidências claras, permitindo afirmar que as crianças pequenas estejam em segurança com Deus, embora nos dê uma base para ter esperança em relação às crianças, infelizmente não sugere que a idade de responsabilidade seja o motivo para a esperança.
                    O Novo Testamento também não ensina que haja em termos, uma idade de prestação de contas. Alguns dizem que a argumentação de Romanos 7:9, é a de não impor castigo por pecados até que os culpados estejam cientes de seu crime, mas essa hipótese não condiz com o que Paulo diz, pois em realidade seu argumento é sobre o funcionamento da lei, não sugerindo que as pessoas sejam inocentes antes de conhecê-la.             Outra passagem citada é Atos 17.29-31: porém, aqui, o argumento de Paulo é bem claro, ou seja, de que Deus é o Deus de todos, judeus e gentios, e portanto Ele os conclama a se arrependerem de sua idolatria. Em nenhum momento, Paulo diz que Deus negligencia o pecado até certo ponto.  Alguns até tentam usar o sentido de "caindo em si", na parábola do filho pródigo, - Lucas 15:17- como suporte para o ensino de que exista uma idade da responsabilidade, porém novamente aqui, há uma nítida intenção de forçar a Bíblia a dizer o que ela não está dizendo.

Misericórdia para os jovens e maliciosos
     Mesmo que houvesse nitidamente um apoio bíblico para a existência de uma "idade da responsabilidade", ainda seria praticamente impossível determinar exatamente quando uma criança chegaria a essa idade. 
A maioria argumenta que isso ocorre em algum momento entre os 4 e os 12 anos de idade, mas é um argumento baseado em tradições extra-bíblicas. 
          Com certeza, as crianças crescem e, à medida que amadurecem, irão enfrentar finalmente a realidade do pecado e sua própria culpa moral, mas dizer que estas crianças não estão cientes do bem e do mal, parece contradizer a experiência da maioria das pessoas que as criaram. Os pais sabem que, mesmo em uma idade muito jovem, as crianças tem a noção de quando estão sendo impertinentes. 
Tenho como exemplo, uma ocasião em que minha esposa e eu estávamos sentados na sala de estar, e nossa filha de 5 anos de repente passou por nós e exclamou: "Nada!" Sem que nós houvéssemos suspeitado de algo.
              De acordo com a pesquisa de Karen Wynn no Centro de Cognição Infantil da Universidade de Yale, também conhecido como "O Laboratório do Bebé", bebês com três meses de idade preferem as pessoas que os ajudam em detrimento das que tenta feri-los. Em outro estudo de J. Kiley Hamlin, da Universidade da Colúmbia Britânica, foi observado que bebês de até oito meses, compreendem quando devem ser punidos os indivíduos praticantes de ações "ruins". O professor de psicologia de Yale, Paul Bloom, que é casado com Wynn, explica que a sensação de moralidade encontrada em bebês apesar de "profundamente limitada", e mesmo sendo um "produto do desenvolvimento cultural", ainda é algo presente.
   Portanto, se os bebês de três meses já demonstram uma consciência da diferença entre o certo e o errado, potencialmente torna-se enfraquecida a noção de uma era ou de uma "idade da responsabilidade".
                   Unindo a falta de apoio bíblico, às evidências cotidianas e aos estudos psicológicos sugerindo que as crianças, são de fato, capazes de reconhecer o comportamento bom e ruim muito cedo, talvez não devamos usar a ideia da "idade de responsabilidade" como base para a nossa esperança em relação às crianças .
    Como evangélicos, cremos que a salvação é propiciada exclusivamente por meio da fé em Cristo, mas temos boas razões para acreditar que o seu poder salvador se estende a todas crianças que ainda são muito jovens para tomar uma decisão. Afinal, o que a Bíblia nos ensina explicitamente sobre Deus, deve dissipar toda e qualquer preocupação sobre o destino de bebês e crianças pequenas. Portanto, não precisamos de conjecturas como a da "idade da responsabilidade".
A principal razão pela qual podemos ter esperança, é porque Deus é um juiz bom e justo. Como Abraão disse: "Não fará justiça o juiz de toda a terra?" ( Gn 18:25 ). Por vermos essa ideia ecoando em toda a Escritura, confiamos confiantemente que Deus sempre faz e fará o que é bom, certo e perfeito (Deuteronômio 32:4). 
Outra razão pela qual não precisamos de uma idade da responsabilidade é porque a doutrina da graça de Deus é claramente evidente na Escritura   (Ex 34: 6; Salmo 103:8; Lam 3:22; Joel 2:13; João 1:14; Romanos 3: 22-24; Efésios 2:8-9). 
           Certamente, a graça de Deus se estende a toda a humanidade, e especialmente às crianças.
            Na verdade, Jesus disse muitas coisas específicas sobre crianças, e é claro que Deus cuida preferentemente delas, dedicando-lhes um amor profundo. Jesus, inclusive ensinou que devemos nos tornar como crianças para entrar no reino dos céus (Mateus 18:2-5, Lucas 18:17); e também advertiu que ninguém deveria desprezar os "pequeninos", porque "seus anjos no céu sempre vêem a face do meu Pai que está nos céus" (Mateus 18:10). 
          Jesus também disse: "deixe as crianças chegarem a mim", porque o reino dos céus lhes pertence (Mateus 19:14). Além disso, Jesus ameaçou um castigo severo para qualquer um que causasse mal ou fizesse uma criança tropeçar ( Mateus 18: 6-7 ). 
    E, se Jesus exalta as crianças desta maneira, podemos nos convencer de que crianças ao morrerem estarão seguras em sua guarda, e Ele é bom, amável, misericordioso e justo. Podemos confiar que Deus cuida das crianças, de forma acima do que jamais iríamos compreender. Quando a vida das pequenas crianças são cortadas e nossa visão é borrada pelas lágrimas, podemos ter certeza de que Ele irá cuidar graciosamente delas, de uma maneira bem consistente. Ele é um Pai Celestial bom e amoroso que sempre faz o que é certo (Salmos 33: 4-5). 
Ele sempre age de acordo com seu caráter santo, justo, misericordioso, gracioso, amoroso e bom - o mesmo caráter amoroso que o levou a enviar seu próprio Filho para morrer por um mundo de pecadores.
            Naquele dia escuro na floresta amazônica, meus alunos auxiliaram os pais e a maioria da comunidade a cavarem uma pequena sepultura na selva. Havia naquela comunidade, apenas um punhado de crentes e, eles   ao buscarem respostas de Deus, pediram aos meus alunos que fizessem o funeral. 
        À medida que os raios solares pontilhavam o chão da selva coberta de folhas, esses alunos representavam o amor, a esperança e a salvação de Deus para aquele povo marcado pela dor. 
              Embora fosse uma experiência imensamente difícil, esses alunos podiam falar com confiança sobre o amor e o bem de Deus, e dar àqueles pais, novos na fé em Cristo, um enorme conforto, pois lhes propiciaram saber que seu filho, agora estava com Deus.

Autor: ALAN BANDY 
                  [Alan Bandy é professor de Novo Testamento e grego na Oklahoma Baptist University. Ele recentemente co-autor, com Benjamin Merkle, Understanding Prophecy: Uma abordagem bíblica-teológica (Grand Rapids: Kregel Academic, 2015].
Publicado em 26 DE MAIO DE 2017 na Revista Christianit Today
http://www.christianitytoday.com/ct/2013/may-web-only/do-all-children-go-to-heaven.html

Traduzido por: Fabio Silveira de Faria


 

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terça-feira, 25 de abril de 2017

QUESTÕES IMPORTANTES SOBRE A QUEDA


Questões Importantes Sobre a Queda
O registro das Escrituras sobre a queda fornece a única explicação adequada para o presente estado decaído do homem e o mal que nos cerca. É também mediante este plano de fundo tenebroso que as resplandecentes glórias da misericórdia e da graça de Deus surgem. Nossa compreensão mínima das glórias de Cristo e Seu Evangelho é diretamente proporcional ao nosso entendimento da tragédia de Adão e sua condenação.
Em nosso estudo da queda, nos deparamos com algumas das questões mais importantes e complexas de todas as Escrituras: a origem do mal, a natureza da liberdade humana, a soberania de Deus, e Seu eterno propósito. Ainda que o que conhecemos a respeito de tais questões será sempre envolto em um determinado grau de mistério, é necessário que nos esforcemos por conhecer o que pudermos. Façamos as seguintes questões:
Como Adão pôde cair?
Deus ordenou a queda?
Qual o propósito eterno de Deus na queda?
COMO ADÃO PÔDE CAIR?
As Escrituras afirmam que a queda não ocorreu devido a nenhuma falha no Criador. Todas as obras de Deus são perfeitas (Deuteronômio 32:4), Ele não pode ser tentado pelo pecado (Tiago 1:13), nem pode Ele tentar outros com o pecado (Tiago 1:13). A culpa pela queda repousa perfeitamente sobre os ombros de Adão. Como Eclesiastes 7:29 declara: “Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias.”
Esta verdade apresenta um dos maiores problemas teológicos em todas as Escrituras: como é possível que uma criatura criada à imagem de Deus veio a escolher o mal e o pecado? Adão e Eva tinham uma verdadeira inclinação para o bem, e não havia nenhuma corrupção ou mal neles para qual a tentação pudesse apelas. Como tais justos seres puderam escolher o mal ao invés do bem, e escolher as palavras de uma serpente ao invés das ordens de seu Criador, está além da compreensão humana.
Houve numerosas tentativas ao longo da história de explicar a queda de Adão, mas nenhuma delas deixa de ter suas limitações. Devemos, portanto, nos contentarmos com a simples verdade da Escritura que, embora tenha Deus feito o homem justo e santo, ele era finito e mutável (isto é, sujeito a mudança) e capaz de fazer uma escolha contrária à vontade de Deus.
DEUS ORDENOU A QUEDA?
A palavra ordenar significa colocar em ordemdispor, ou designar. Perguntar se Deus ordenou a queda é perguntar se ele a colocou em ordem, a dispôs, designou que ela ocorresse. Outras palavras que carregam significado similar são: “decretar”, “predeterminar”, e “predestinar”. Deus determinou de antemão ou decretou que a queda deveria ocorrer? A resposta para esta pergunta é “sim”, mas nós devemos ter muito cuidado com o que isto significa e o que isto não significa.
A ordenança de Deus da queda não significa que Ele forçou Satanás a tentar nossos primeiros pais, ou que Ele os coagiu a desprezar Sua ordem. O que as criaturas de Deus fizeram, elas fizeram por sua própria vontade. Deus é santo, justo, e bom. Ele não peca, não pode ser tentado pelo pecado, Ele não tenta ninguém ao pecado.
A ordenança de Deus da queda significa que isto era certo de acontecer. Foi da vontade de Deus que Adão fosse testado, e foi da vontade de Deus deixar que Adão tanto se mantivesse de pé quanto caísse sozinho sem o auxílio divino que poderia tê-lo impedido de cair. Deus poderia ter impedido que Satanás dispusesse a tentação diante de Eva, ou à face de tal tentação, Ele poderia ter dado a Adão uma graça sustentadora especial para capacitá-lo a triunfar sobre ela. A partir do testemunho das Escrituras, entendemos que Ele não fez isso.
A ordenança de Deus da queda também significa que ela foi parte de Seu plano eterno. Antes da fundação do mundo, antes da criação de Adão e Eva e a serpente que os tentou, antes da existência de qualquer jardim ou árvore, Deus ordenou a queda para Sua glória e o bem maior de Sua criação. Ele não meramente permitiu que nossos primeiros pais fossem tentados e então esperou para reagir a qualquer escolha que eles viessem a fazer. Ele não meramente olhou através dos corredores do tempo e viu a queda. Mas a queda era uma parte do plano eterno de Deus, e Ele predeterminou ou predestinou que ela deveria e iria acontecer.
Neste ponto, uma questão muito importante surge:
“Deus é o autor do pecado?”
Esta questão pode e deve ser respondida com uma forte negativa. Deus não é o autor do pecado, nem coage o homem a pecar contra Ele. Embora Ele tenha predeterminado que a queda deveria e iria acontecer, Ele também predeterminou que ela deveria acontecer através das ações voluntárias de Satanás, Adão e Eva. Ainda que nossas mentes finitas não possam compreender plenamente como Deus pode ser absolutamente soberano sobre todo evento da história e sobre cada ato individual sem destruir a liberdade individual, as Escrituras abundam em exemplos que demonstram que isto é verdade. José foi vendido à escravidão através do pecado deliberado de seus irmãos, e ainda assim, quando a história final foi contada, José declarou: Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus intentou para o bem, para fazer o que se vê neste dia, isto é, conservar muita gente com vida” (Gênesis 50:20 AA). O Filho de Deus foi crucificado como o resultado do pecado deliberado do homem e a hostilidade para com Deus, e ainda assim Deus ordenou ou predeterminou a morte de Cristo antes da fundação do mundo. Nas Escrituras nós lemos:
“… sendo este [Jesus] entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mão de iníquos.” -Atos 2:23
“Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram.” -Atos 4:27-28
A partir das Escrituras, nós vemos que Deus ordena ou predetermina um evento para que ele ocorra e ainda assim faz com que ele aconteça através do pecado deliberado do homem. Ele faz isso sem que seja o autor dos pecados dos homens ou coagindo-os para que o façam sem que seja da vontade deles. Homens ímpios deliberadamente pregaram Jesus Cristo à cruz e foram responsáveis por suas ações, mas o evento inteiro estava de acordo com o plano predeterminado de Deus. A queda de Satanás, e a queda da raça humana mais tarde através de Adão e Eva, foram resultados de seus próprios pecados pelos quais apenas eles são responsáveis, e ainda assim os eventos aconteceram de acordo com o ordenado, predeterminado, predestinado plano de Deus. Deus decretou um grande propósito eterno para Sua criação, e ordenou cada evento da história pelos quais tal propósito está sendo cumprido. Nada, nem mesmo a queda do homem ou a morte do Filho de Deus, ocorre à parte do decreto soberano de Deus.
“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” -Romanos 11:33-36
“…nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade…” -Efésios 1:11
QUAL O PROPÓSITO ETERNO DE DEUS NA QUEDA?
Tendo demonstrado que a queda foi resultado da desobediência deliberada da criatura e ainda assim de acordo com o eterno propósito de Deus, agora é necessário que nos esforcemos por conhecer tal propósito eterno. À luz do mal e do sofrimento que resultaram da queda, pode parecer difícil aceitar que possa ter havido qualquer bom propósito nela. Todavia, a Palavra de Deus nos assegura que existe tal propósito.
Sabemos a partir das Escrituras que a criação do universo, a queda do homem, a nação de Israel, a cruz de Cristo, a Igreja, e o julgamento das nações têm um grande e derradeiro propósito: Que a plenitude dos atributos de Deus seja revelada a Sua criação e que toda a criação O conheça, O glorifique, e deleite-se plenamente n’Ele como Deus.
A Plena Revelação dos Atributos de Deus
Deus criou o universo para ser um teatro sobre o qual Ele possa exibir a infinita glória e valor de Seu ser e seus atributos, para que Ele seja plenamente conhecido, adorado, e apreciado por Sua criação. Foi dito por muitos que a queda do homem é o céu negro sobre o qual as estrelas dos atributos de Deus brilham com a maior intensidade de glória. É apenas através da queda e o advento do mal que a plenitude do caráter de Deus pode ser verdadeiramente conhecida.
Quando um Cristão adora a Deus, quais são os atributos que lhe parecem mais queridos? Não são a misericórdia, a graça e o amor incondicional de Deus? Não são estes atributos divinos mais exaltados em todos os grandes hinos da Igreja? Mas como estes atributos poderiam ser conhecidos senão através da queda do homem? O amor incondicional somente pode ser manifesto sobre homens que não correspondem às condições. A misericórdia somente pode ser derramada do trono de Deus sobre homens que merecem a condenação. A graça somente pode ser concedida a homens que não fizeram nada para merecê-la. Nossa decadência é nosso feito, pelo qual somos obrigados a assumir plena responsabilidade. Ainda assim é através do teatro negro de nossa decadência que a graça e a misericórdia de Deus são postas no centro do palco e brilham sobre um público tanto de homens quanto de anjos. É na salvação dos homens caídos que a sabedoria, a graça e a misericórdia de Deus são reveladas, não apenas ao homem, mas também a todo ser criado nos céus, na terra e no inferno.
Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. -Efésios 2:4-7
A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais. -Efésios 3:8-10
A Plena Revelação das Glórias de Cristo
A maior obra de Deus é a morte e a ressurreição do Filho de Deus para a salvação do povo de Deus. Contudo, se o homem não tivesse caído, não haveria Calvário e nem Salvador. A própria coisa que mais elucida a Deus (João 1:18), nos atrai para Ele (João 12:32), e faz com que O amemos (1 João 4:10, 19) desapareceria. O que tomaria seu lugar? Que outros meios poderiam ter sido usados para demonstrar as imensuráveis misericórdias de Deus? Cristo crucificado é o grande tema de todo digno hino, sermão, conversação, e pensamento cristãos. Sem a queda, a redenção seria desconhecida a nós. Nós seríamos como os anjos, anelando perscrutar algo que nós nunca poderíamos experimentar (1 Pedro 1:12).
É errado, e beira a blasfêmia, até mesmo insinuar que a cruz de Cristo foi um mero Plano “B” que foi posto em prática somente por causa da escolha errada de Adão no jardim. A cruz é o evento principal para o qual qualquer outra obra da providência de Deus aponta. Todas as coisas permanecem em sua sombra. De uma forma, a cruz foi necessária por causa da queda, mas por outro lado, a queda foi necessária para que as glórias de Deus na cruz de Cristo pudessem se dar a conhecer plenamente.
A Plena Revelação da Dependência da Criatura
Uma das verdades mais impressionantes sobre Deus é que Ele é absolutamente livre de qualquer necessidade ou dependência (Atos 17:24-25). Sua existência, o cumprimento de Sua vontade, e Sua alegria ou beneplácito não dependem de nada nem ninguém fora de Si mesmo. Ele é o único ser que é de fato coexistente, autossustentado, autossuficiente, independente e livre. Todos os outros seres derivam suas vidas e felicidades de Deus, mas Deus encontra tudo o que é necessário para Sua própria existência e perfeita alegria em Si mesmo (Salmo 16:11; Salmo 36:9).
A existência do universo requer não apenas o ato inicial da criação, mas também o contínuo poder de Deus para sustentá-lo (Hebreus 1:3). Se Ele retirasse Seu poder mesmo por um momento, tudo se tornaria caos e destruição. Esta mesma verdade pode ser aplicada ao caráter dos seres morais, quer sejam anjos ou homens. Adão no paraíso e Satanás no céu, ainda que tenham sido criados justos e santos, não poderiam permanecer em pé à parte da graça sustentadora de um Deus Todo-Poderoso. Quão menos somos nós capazes de permanecer em pé e quão mais rapidamente cairíamos à parte da mesma graça sustentadora? A queda, portanto, fornece o maior exemplo de nossa constante carência de Deus. Se não podemos continuar nossa existência além de nosso próximo fôlego exceto pela preservação de Deus, quão menos somos capazes de manter qualquer aparência de justiça diante d’Ele à parte de Sua graça? (João 15:4-5; Filipenses 2:12-13)
OBS: ESTE TEXTO FAZ PARTE DO LIVRO:
 A Queda de Adão [A Verdade sobre o Homem – 2/13] por Paul Washer 
http://voltemosaoevangelho.com/blog/2012/07/paul-washer-a-queda-de-adao-a-verdade-sobre-o-homem-210/

Copyright © por Paul David Washer, Sociedade Missionária HeartCry. 
Publicado por Granted Ministries Press, uma divisão de Granted Ministries. 
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, seu ministério e o tradutor, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.




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segunda-feira, 13 de março de 2017

OS GRUPOS JUDAICOS NA ÉPOCA DE CRISTO.



Por Robson T. Fernandes

Resumo
O presente artigo versa sobre a origem e características dos grupos judaicos do 1º século, e suas influências na sociedade da época. O autor demonstra que a origem de tais grupos se dá em um contexto de reação contra o misticismo e ameaça da existência do judaísmo e que ora tem motivações políticas, ora religiosas, ora filosóficas. Ainda, se por um lado a sinagoga é criada como instrumento de preservação do judaísmo, por outro é uma das responsáveis pela facilitação do surgimento dos diversos grupos judaicos. Dessa forma, as sinagogas eram utilizadas como plataforma nas quais os grupos propagavam suas opiniões ao discordarem dos dirigentes do Templo. Por último, o autor demonstra que os grupos judaicos do 1º século mudaram a essência da fé judaica, e por isso, se por um lado surgiram com o intuito de preservar a fé judaica, por outro lado foram exatamente os responsáveis por fazer com que a fé judaica original se tornasse diferente desse judaísmo. Por isso, modificaram aquilo que tanto desejavam preservar.
Introdução
As hostilidades contra o cristianismo primitivo eram comuns, especialmente por parte da comunidade judaica do primeiro século. Inicialmente por parte dos fariseus, que eram um partido religioso, e dos saduceus, que eram um partido político-religioso. Dessa forma, fica claro a existência de grupos judaicos distintos, entre os quais se vê a representação tanto da opinião e posicionamento escriturístico de seus integrantes bem como de suas ideologias filosófico-políticas.
Todavia, para prosseguirmos é necessário fazermos uso de algumas fontes primárias, a exemplo de Flávio Josefo [1]. A importância deste historiador é de tal importância que o Dr. Augustus Nicodemus declara que “como historiador judeu, as obras de Josefo são inestimáveis para o nosso conhecimento da história dos judeus debaixo do domínio romano” [2].
Dessa forma, são três os grupos judaicos citados por Flávio Josefo, no aspecto filosófico: Existem, com efeito, entre os judeus, três escolas filosóficas: os adeptos da primeira são os fariseus; os da segunda, os saduceus; os da terceira, que apreciam justamente praticar uma vida venerável, são denominados essênios: são judeus pela raça, mas, além disso, estão unidos entre si por uma afeição mútua maior que a dos outros. [3] Quando observamos o aspecto filosófico do judaísmo, encontramos três grupos, como fez Josefo – Fariseus, Saduceus e Essênios. Porém, quando observamos o aspecto étnico encontramos os samaritanos que são uma miscigenação de judeus e gentios, e os herodianos que possuíam um laço consanguíneo com Herodes, o Grande. Ainda, haviam os zelotes que eram um grupo político do século I que buscava promover uma rebelião contra o Império Romano, com o intuito de libertar Israel pela força e que termina por promover a Primeira Guerra Judaico-Romana (66-70).
Ainda, outros grupos são encontrados entre os judeus, a exemplo dos sicários e dos publicanos.
Os Sicários eram um subgrupo oriundo dos zelotes, porém, mais radicais. O termo é originário do latim ‘sicarius’ e significa ‘homem da adaga’. Essa expressão só surge algumas décadas após a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., de acordo com Kippenberg, que afirma, ainda, que o termo “foi a denominação dada ao movimento revolucionário rural da Judéia” [4] e já o termo zelotes se referia a “um movimento sacerdotal” [5], isto é, de cunho mais religioso. Por essa razão, o grupo dos Sicários não será tratado em particular neste artigo, pois são uma subdivisão dos zelotes.
Os Publicanos eram os coletores de impostos nas províncias do Império Romano. De acordo com Buckland [6], haviam dois tipos de Publicanos: os Publicanos Gerais e os Publicanos Delegados. Os Publicanos Gerais respondiam ao imperador romano e eram responsáveis pelos impostos. Os Publicanos Delegados eram aqueles que eram comissionados pelos Gerais para coletar os impostos nas províncias. Estes eram considerados como “ladrões e gatunos”. Muito embora fossem odiados pelos seus compatriotas, os judeus, Buckland afirma que diferentemente dos fariseus, os Publicanos não eram hipócritas.
Como os Publicanos são mais uma “profissão” do que um grupo filosófico-político-religioso ele não será tratado em particular neste artigo.
Diante do quadro apresentado é importante se estudar cada um desses grupos de forma separada, para depois se montar o quadro político-religioso geral da nação. Por último, buscar aprender com a história para que não se cometam os mesmos erros outra vez.
1. Os Fariseus
Em geral, atribui-se o surgimento do farisaísmo ao período correspondente ao cativeiro babilônico (587-536 a.C.). E, basicamente, toda a informação acerca desse grupo é oriunda das obras do historiador Flávio Josefo [7], dos diversos escritos dos rabinos, por volta do séc. II, e das informações contidas no Novo Testamento.
Muito embora se atribua ao termo ‘fariseu’ o sentido de ‘separado’ este significado não é uma certeza. Porém, sabe-se que era o grupo mais seguro da religião judaica (At 26:5), e que surgiu por volta da guerra dos macabeus, com a finalidade de oferecer resistência ao espírito helênico trazido por Roma e que possuía, em seu interior, a intenção de preservar o judaísmo e suas crenças ortodoxas. Muito embora, Enéas Tognini declare que “há dois grupos terrivelmente antagônicos desses “fariseus”: separatistas e liberais. O primeiro se opunha terminantemente às influências helenísticas na Palestina [8], enquanto o segundo era favorável” [9].
Um dos fatores que mais colaborou para a organização deste partido foi a perseguição promovida por Antíoco Epifânio. Porém, Flávio Josefo declara que foi sob a influência de João Hircano [10] que os fariseus passaram a desfrutar do apoio do povo em geral [11].
Ainda, segundo citação de Tognini [12] sobre Josefo, os fariseus criam no livre-arbítrio do homem, na imortalidade da alma, na ressurreição do corpo, na existência de anjos, na direção divina de todas as coisas, nas recompensas e castigos na vida futura, na preservação da alma humana após a morte e na existência de espíritos bons e maus. Contudo, Jesus denunciou severamente este grupo por causa de sua hipocrisia e orgulho. Em linhas gerais, podemos afirmar que este grupo surgiu por uma boa razão, mas seus objetivos foram desvirtuados no decorrer do tempo, especialmente porque não se deve apenas adquirir o conhecimento ou defendê-lo, mas colocá-lo em prática.
Por essa razão, o termo fariseu tornou-se sinônimo de hipócrita. Tanto que o próprio Jesus afirma: “… tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam” (Mt 23:3). Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, podemos iniciar uma maratona de cautela e vigilância, porque a defesa da fé deve ser feita alicerçada no amor bíblico e não em bases religiosas fanáticas e desprovidas do biblicismo necessário. Por outro lado, a prática da Lectio Divina [13] precisa ser reensinada na Igreja, para que assim o sistema educacional eclesiástico na hipermodernidade [14] volte a ensinar para o povo a Teologia Bíblica aliada à vida devocional, o que nos auxiliará a não cair em um neo-farisaísmo.
2. Os Saduceus
Era o grupo que fazia oposição aos fariseus.
O surgimento desse grupo traz alguma controvérsia, pois as suas origens são desconhecidas. Alguns acreditam que deve ter surgido com Zadoque, um sacerdote do período do rei Davi. Este grupo era mais sacerdotal e aristocrático e, sendo mais fechado, não fazia questão de popularização. Ainda, Schubert [15] afirma que de 539 a.C. (período do domínio persa), até o período de Alexandre, o Grande, as famílias dos sumo sacerdotes se mostravam complacentes com os vizinhos pagãos, vivendo em harmonia com os povos helênicos. Era um grupo composto por homens educados, ricos e de boa posição social. Em geral, tinham crenças opostas a dos fariseus. De acordo com Schubert, ao citar Josefo, os saduceus negavam a ressurreição e juízo futuro, criam que a alma morria com o corpo, negavam a imortalidade, negavam a existência dos anjos e dos espíritos, criam que Deus não intervinha nas vidas dos homens, não tinham as mesmas crenças que os patriarcas, negavam a existência do Sheol (inferno) e só depositavam a crença naquilo que a razão pura pudesse provar. De forma geral, o Novo Testamento apresenta de forma negativa um resumo da crença dos saduceus: “os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo nem espírito” (At 23:8).
Com isso, percebemos que este era um grupo que interpretava as Escrituras utilizando como base os mesmos pressupostos que futuramente passaram e ser denominados de ‘humanistas’ [16], desconsiderando o caráter divino, espiritual e sobrenatural.
Franklin Ferreira faz a seguinte declaração acerca da crença dos saduceus: Os saduceus, com o seu repúdio à doutrina da ressurreição e descrença na existência de seres angelicais, podem ser considerados como precursores dessa corrente de interpretação das Escrituras. Pouco se sabe sobre a origem desse partido judaico, mas parece haver adotado uma posição secular-pragmática de interpretação das Escrituras. Ao negarem verdades básicas das Escrituras, os saduceus podem ser considerados, guardadas as devidas proporções, como os modernistas ou liberais da época. [17]
Por isso, conclui-se que enquanto os fariseus eram os conhecedores da Escritura, mas hipócritas, os saduceus eram os líderes, mas mercenários e humanistas, no uso geral do termo. Por causa de suas atitudes venais e suas más práticas começaram a se tornar impopulares. A influência dos saduceus era grande, mas sua fidelidade a Deus mínima. A riqueza dos saduceus era grande, mas sua integridade mínima. A influência política e religiosa dos saduceus era grande, mas seu caráter era mínimo. Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, podemos concluir que há uma profunda semelhança na sociedade hipermoderna com os saduceus, já que presenciamos uma diversidade de líderes religiosos que têm se prostituído por causa de benefícios financeiros, status e vantagens pessoais.
3. Os Samaritanos
Atribui-se a origem dos samaritanos a ocasião quando Sargom tomou Samaria para o cativeiro e tentou desnacionalizá-los misturando-os com os babilônios (IIRs 17:24). Talvez esse tenha sido um dos motivos pelos quais os outros judeus abominavam os samaritanos, considerando-os a escória da sociedade. Além disso, os samaritanos eram acusados pelos judeus de serem oportunistas, procurando ficar do lado dos judeus apenas quando estes estavam em ascensão. Este grupo era frequentemente ridicularizado e desprezado pelo restante dos judeus. Joachim Jeremias [18], ao citar a obra de Levi VII 2, afirma que “a partir de hoje Siquém será chamada a cidade dos idiotas, porque nós zombamos deles como se zomba de um louco”. Costumeiramente, os samaritanos adoravam no templo, porém, ao voltar do cativeiro os judeus os proibiram de participar da reconstrução de Jerusalém, e o genro de Sambalate, que era sacerdote, foi expulso dali por Neemias. Por não terem ‘sangue puro’, não possuir religião judaica, por serem acusados de oportunismo, porque o sacerdote (genro de Sambalate) foi expulso do convívio social e por serem proibidos de participar da reconstrução, começaram a se empenhar contra a obra que Neemias estava fazendo.  Então, Sambalate construiu um templo rival ao de Jerusalém, no monte Gerizim.
Ainda, para piorar a situação, desde a construção deste segundo templo, a situação entre judeus e samaritanos se agravou, e o clima de ódio e desprezo se torna cada vez maior, como nos apresenta o livro apócrifo de Eclesiástico ao afirmar que “há dois povos que minha alma abomina, e o terceiro, que aborreço, nem sequer é um povo: aqueles que vivem no monte Seir, os filisteus, e o povo insensato que habita em Siquém” [19]. Sabendo que este denominado “povo insensato que habita em Siquém” são os samaritanos. Ainda, os samaritanos mantinham crenças semelhantes à dos saduceus. Apesar de todas as acusações do judaísmo contra os samaritanos, encontramos diversas passagens bíblicas, neotestamentárias, nos mostrando a pregação do Evangelho para os samaritanos (Lc 17:16; Jo 4; At 1:8; At 8:5,14; At 9:31) e até uma conduta destes que é contraposta à conduta do farisaísmo (Lc 10:25-37). Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, podemos concluir que o verdadeiro evangelho não faz acepção de pessoas, e trata a todos de igual para igual, independente dos erros passados.
4. Os Essênios
Enquanto os fariseus se tornaram sinônimos de hipócritas e os saduceus de mundanismo, o essênismo se torna sinônimo de isolacionismo, isto é, vida separada e afastada de todos. Os essênios surgiram na tentativa de manter a instrução Escriturística viva, assim como os fariseus, mas sem a hipocrisia característica desse grupo, e a busca por uma vida de fidelidade e compromisso, diferentemente dos saduceus. Por isso, Charles C. Ryrie afirma que o “essenismo foi uma reação ascética ao externalismo dos fariseus e ao mundanismo dos saduceus” [20]. O problema é que eles pensavam que para se cultivar uma vida de santidade teriam que viver isolados do mundo, em um sistema de ascetismo. Basicamente, os essênios se dedicavam ao estudo das Escrituras, a oração e as lavagens cerimoniais, conhecidas como banhos Mikvah. Dividiam seus bens com a comunidade e eram conhecidos por seu trabalho e vida piedosa. Existe, ainda, a teoria da existência de dois grupos distintos de essênios, que é apresentada na Enciclopedia de la Biblia, que apresenta o grupo essênio de Qumran e outro, talvez, no Egito [21]. Nos achados do Mar Morto, os manuscritos de Qumran, encontram-se evidências de que os essênios se isolaram por desejarem abandonar as influências corruptas das cidades judaicas.  Eles se dedicaram a preparar o “caminho do Senhor”, crendo que o Messias viria, e consideravam-se o verdadeiro Israel. Segundo Josefo, os essênios, além de enviar suas oferendas ao templo, realizavam seus sacrifícios de forma diferente do restante dos judeus e acentuavam a importância da purificação [22].
Por causa dessa diferenciação ritualística, os judeus os proibiram de sacrificar no templo, que os mesmos essênios afirmavam estar contaminado pela impureza da religiosidade social e judaica.
O historiador Plínio [23], o velho, apresenta algumas características desse grupo: Na parte ocidental do mar Morto os essênios se afastam das margens por toda a extensão em que estas são perigosas. Trata-se de um povo único em seu gênero e admirável no mundo inteiro, mais que qualquer outro: sem nenhuma mulher e tendo renunciado inteiramente ao amor; sem dinheiro e tendo por única companhia as palmeiras. Dia após dia esse povo renasce em igual número, graças à grande quantidade dos que chegam; com efeito, afluem aqui em grande número aqueles que a vida leva, cansados das oscilações da sorte, a adotar seus costumes (…) Abaixo desses ficava a cidade de Engaddi, cuja importância só era inferior à de Jericó por sua fertilidade e seus palmeirais, mas que se tornou hoje um montão de ruínas. Depois vem a fortaleza de Massada, situada num rochedo, não muito distante do mar Morto. [24] Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, aprendemos que para haver uma vida de santidade e dedicação não é necessário o isolamento. A luz deve brilhar em meio as trevas e o sal deve temperar onde não há tempero.
5. Os Herodianos
Era um grupo de judeus que acreditava na cooperação com Herodes, para haver o favorecimento dos judeus, muito embora Herodes considerasse a si mesmo um deus vivo, tentando helenizar Israel, exercendo forte pressão política sobre a nação judaica e buscando corromper os costumes judaicos. Historiadores como Jerônimo, Tertuliano, Epifânio, Crisóstomo e Teófilo revelam que os herodianos criam ser Herodes o Messias, surgindo em defesa de Herodes para adquirir algum tipo de benefício. Tognini [25] declara que “os herodianos eram um partido mais político que religioso. Eram um com os saduceus em religião, divergindo apenas em um ou outro ponto político”. E Hale [26] apresenta os herodianos como um grupo independente e oriundo de uma ala esquerdista dos saduceus.
As informações acerca dos herodianos são poucas, porém, Saulnier e Rolland afirmam que os herodianos possuíam privilégios e regalias concedidas pelo governo de Herodes [27]. Porém, parece que a finalidade política dos herodianos era se fortalecer o suficiente para depois se desligar do poder e dependência romana, pois havia ainda um sentimento de nacionalismo que se opunha a um poder estrangeiro, como afirma Douglas [28].
Esse grupo se colocava à disposição do governo romano, trabalhando como espiões que observavam continuamente possíveis situações que poderiam trazer problemas ao governo, como rebeliões políticas, insurreições ou movimentos messiânicos, a exemplo de Jesus e seus discípulos, como declaram Saulnier e Rolland [29]. Ao passo que os zelotes eram fervorosos defensores de uma rebelião, os herodianos se tornam então seus opositores.
Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, perceberemos que existem, em todos os períodos de tempo, aqueles que sempre estarão dispostos a sacrificar as convicções em troca do recebimento de benefícios pessoais. Por isso, esse grupo é caracterizado por aqueles que buscam seus próprios interesses em detrimento do próximo, e o completo desapego das verdadeiras convicções e princípios, a começar pelos princípios éticos e Escriturísticos. Para estes, o que mais importa é estar ao lado daquele que lhes proporciona benefícios, pois assim poderão experimentar os resultados trazidos pela influência e status do poder.
6. Os Zelotes
Os zelotes são um grupo que se destaca como sendo o mais radical dentro do judaísmo. Foram os principais responsáveis por produzirem os levantes contra Roma, provocando a Guerra judia (66-70 d.C.), culminando na destruição de Jerusalém e do Templo. Os zelotes tornaram-se sinônimos de ‘fervorosos’, e foram os que uniram o fervor religioso com o compromisso social, assim como os sicários [30]. Este grupo rebelde idealizava a vinda do Messias mediante uma ação revolucionária, que resultaria em sua libertação das mãos opressoras de Roma e do helenismo. De acordo com Horsley e Hanson o zelo por Deus e pela Lei de Deus não pode ser utilizado como características para se denominar um grupo, pois de certa forma todos os grupos judeus possuíam essa característica [31]. No entanto, o que caracteriza os zelotes não é apenas esse zelo, tão somente, mas a manifestação desse zelo através do desejo de revolução e luta como meio de libertação. Isso é o que o faz diferente de outros grupos.
Conclusão
O Israel do 1º século possuía uma gama de facções e grupos étnico-filosófico-político-religiosos que promoviam uma nação fragmentada. Muito embora alguns desses grupos visassem a libertação do domínio de Roma, outros estavam imbuídos do desejo de reconhecer o governo de Roma e a Herodes como o messias.
Se por um lado a resistência judaica visava a preservação de sua religião e cultura contra a tentativa de helenização e paganização de seu povo, por outro lado essa resistência se formava em frentes que tinham interesses particulares e que se uniam apenas em ocasiões muito especiais em prol de um objetivo comum, como no caso da perseguição contra Jesus e Sua crucificação. Ainda, como no caso da união e geração da Primeira Guerra Judaico-Romana, que termina quando as tropas do general Tito sitiam e destroem a resistência judaica em Jerusalém, resultando em um domínio romano mais acirrado. Outros elementos foram de fundamental importância para o judaísmo do primeiro século, e que tiveram o seu início desde o exílio babilônico, como a sinagoga e o rabinado. Enquanto a sinagoga tinha a função de acomodar judeus que se reuniam para orar, cantar e discutir a Torah proporcionando assim o ensino teológico, garantindo a sobrevivência do judaísmo (Ne 8), a figura do rabi tinha a responsabilidade de viabilizar para o povo judeu essa transmissão realizada na sinagoga. Packer, Tenney e White Jr. afirmam que “essas mudanças garantiram a sobrevivência do judaísmo, mas também ajudaram a criar novas facções” [32]. O que vemos, então, é um quadro histórico pintado com grupos judeus divididos por pensamentos e ideologias distintas, no exato momento em que surge Jesus Cristo. Porém, para os fariseus é apresentada a mensagem de reprovação quanto a sua hipocrisia. Para os saduceus é apresentada a mensagem de que o amor ao mundo é inimizade contra Deus. Para os samaritanos é apresentada a mensagem de que ninguém podia servir a dois senhores. Para os essênios é apresentada a mensagem de que a luz deve brilhar em meio as trevas. Para os herodianos é apresentada a mensagem de que aquele que amar a sua vida esse perdê-la-á. Para os zelotes é apresentada a mensagem de que aquele que vive pela espada morre por ela. Posteriormente surge outro grupo. Um grupo formado pela união de judeus e gentios. Povos de todas as raças, tribos, línguas e nações. Povos que foram redimidos pelo Messias e se tornaram seus seguidores em todas as partes do globo, através dos séculos. Esse grupo perdura até os dias de hoje, e o seu fundador, Jesus Cristo, disse: “sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18).
NOTAS

[1] Flávio Josefo. Conhecido como Josefo, viveu por volta do ano 100 d.C. Apesar de judeu, tornou-se cidadão romano e foi um importante historiador do 1º século. Suas obras apresentam um importante quadro do judaísmo do século I.
[2] LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e Seus Intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
[3] JOSEFO, Flávio. Bellum Iudaicum II, VIII, 119.
[4] KIPPENBERG, Hans. Religião e Formação de Classes na Antiga Judéia. São Paulo: Paulus, 1988, p.121.
[5] Idem. p.121
[6] BUCKLAND, A. R. Dicionário Bíblico Universal. São Paulo: Vida, 1981.
[7] Guerra dos Judeus (75 d.C.), Antiguidades Judaicas (94 d.C.), e Autobiografia (101 d.C.)
[8] É importante salientar que o termo ‘Palestina’ só foi cunhado por volta do ano 70 d.C. com a invasão do império romano que destruiu o templo e realizou um genocídio, na tentativa de apagar da história a memória da nação de Israel. Portanto, o termo correto aqui é Israel, e não Palestina, que se refere a uma nação que não existe, uma língua que não existe e uma cultura que não existe, mas que é fruto da tentativa do mundo árabe-islâmico de fundar o seu próprio Estado em detrimento da nação de Israel.
[9] TOGNINI, Enéas. O período Interbíblico. São Paulo: Hagnos, 2009, p.153
[10] João Hircano foi um sumo sacerdote que governou a Judéia entre 135 e 104 a.C.
[11] Josefo. Antiguidades XIII. 10.5-7.
[12] Idem, p.155
[13] A Lectio Divina consiste de: 1) Lectio – Leitura; 2) Meditatio – Meditação; 3) Oratio – Oração; 4) Contemplatio – Contemplação. Traduzindo ao pé da letra, Lectio Divina é: “Leitura Divina”. Mas também é conhecida como “Leitura Orante”. Era uma prática dos cristãos antigos, quando dedicavam um tempo exclusivo para meditar no texto da Escritura Sagrada, acompanhado de oração, meditação e oração, sempre contemplando de forma prática a mensagem do texto.
[14] Hipermodernidade é o termo criado pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky para delimitar o momento atual da sociedade humana.
[15] SCHUBERT, Kurt. Os Partidos Religiosos Hebraicos da época Neotestamentária. São Paulo: Paulinas, 1979, p.15,16
[16] O humanismo é uma filosofia moral que apresenta o ser humano como a medida de todas as coisas. Isto é, o homem é o centro de tudo. Portanto, a ideia é contrapor-se a qualquer ser ou coisa de cunho sobrenatural. Surgindo por volta do século XIX é uma das heranças do Iluminismo do século XVIII, e é um dos pressupostos do ateísmo.
[17] FERREIRA, Franklin. Apostila de Hermenêutica. Rio de Janeiro: STBSB, 1999, p.12,13.
[18] Joachim Jeremias foi um teólogo Luterano alemão e professor de Novo Testamento e faleceu em 1979.
[19] Eclesiástico 50:27,28
[20] RYRIE, Charles C. A Bíblia Anotada. São Paulo: Mundo Cristão, 1994, p.1659.
[21] Enciclopedia de la Biblia, v.3, p.143-150.
[22] Antiguidades Judaicas. XVIII, 19.
[23] Gaius Plinius Secundus foi um historiador romano que escreveu Naturalis Historia, um vasto compêndio das ciências antigas composto por 37 volumes e dedicado a Tito Flávio, que viria a ser imperador de Roma.
[24] PLÍNIO, O Velho. Naturalis Historia. v. 73.
[25] Idem, p.167.
[26] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001, p.20.
[27] SAULNIER, Christiane & ROLLAND, Bernard. A Palestina nos tempos de Jesus. 7 ed. São Paulo: Paulinas, 1983, p.83.
[28] DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995, p.712.
[29] Idem, p. 83.
[30] Uma explicação sobre os sicários é realizada na Introdução deste artigo.
[31] HORSLEY, Richard A. & HANSON, John S. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995, p.166.
[32] PACKER, J. I.; TENNEY, Merril C.; WHITE, William. O Mundo do Novo Testamento. São Paulo: Vida, 1991, p.82.
FONTE:http://www.napec.org/religioes/os-grupos-judaicos-na-epoca-de-cristo/ 
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