quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS PARTE 5!


     



<<<<NÃO HÁ NESTE ESTUDO QUALQUER PRETENSÃO DE SOLUCIONAR EM TODOS OS NÍVEIS AS DIFICULDADES EXISTENTES NA INTERPRETAÇÃO DESTE LIVRO.                        
O OBJETIVO É APENAS O DE APRESENTAR ALGUMAS SUGESTÕES HERMENÊUTICAS E EXEGÉTICAS CONSTANTES NO LIVRO ''ENTENDES O QUE LÊS?" PUBLICADO PELA EDITORA VIDA NOVA, DE AUTORIA DOS PROFESSORES GORDON D. FEE E DOUGLAS STUART. >>>>

QUINTA PARTE
                                                            AS QUESTÕES HERMENÊUTICAS!

As dificuldades hermenêuticas do apocalipse são bem semelhantes ao dos livros proféticos. Assim como, acontece com todos os gêneros, a Palavra de Deus para nós, se encontra embutida na palavra dita aos leitores primitivos, porém em contraste com os demais gêneros, os Profetas e o Apocalipse em muitos momentos falam acerca de coisas que, para estes leitores, ainda eram futuras.
Frequentemente, aquilo que "deveria ser" tinha um aspecto temporal imediato, que do nosso ponto de vista histórico já aconteceu. 
Desta forma, Judá foi mesmo para o cativeiro, e foi restaurado exatamente como Jeremias profetizara; também o Império Romano, realmente acabou se sujeitando ao julgamento temporal, parcialmente através das hordas bárbaras, exatamente como João previu. O que era futuro para eles é passado para nós, mas para tais realidades, os problemas hermenêuticos não são grandes em demasia. Ainda podemos ouvir, como Palavra de Deus, as razões para aqueles julgamentos, assim como, poderemos, também, a todo o momento ter a  do julgamento de Deus sobre todos os que "pisoteiam os necessitados, por um par de sandálias", e igualmente, poderemos corretamente supor que as taças da ira do julgamento divino será derramado sobre as nações promotoras do assassinato de cristãos, da mesma maneira feita a Roma.  
Além disto, podemos ainda ouvir como a Palavra de Deus a nós: [ e realmente devemos ouvir ] que o discipulado segue o caminho da Cruz, e que Deus não nos prometeu o livramento do "sofrimento e da morte", mas sim, o "triunfo" por intermédio deles. 
Conforme palavras ditas por Martinho Lutero: "O príncipe do mal, com rosto infernal, já condenado está... Embora a vida vá, por nós Jesus está, e dar-nos-á seu reino".
Portanto, o Apocalipse é a Palavra de Deus de consolo e encorajamento aos cristãos que sofrem perseguições, seja na Rússia, na China, no Iraque, ou em qualquer outro lugar. Deus está no controle. Viu a labuta de Seu Filho, e ficará satisfeito.
Tudo isto é uma Palavra que precisa ser ouvida repetidas vezes na igreja, em todos os climas e em todas as eras. Se não perceber esta Palavra, o sentido do livro inteiro estará perdido.
Nossas dificuldades hermenêuticas, no entanto, não se acham em ouvir esta Palavra, a palavra de advertência e de consolo que é a razão de ser do livro. Nossas dificuldades acham-se naquele outro fenômeno da profecia, a saber: "que a palavra temporal está frequentemente tão estreitamente vinculada às realidades escatológicas finais". Esse é o caso especialmente do Apocalipse. A queda de Roma no capítulo 18 parece constar como o primeiro capítulo no desfecho final, e muitos dos quadros do julgamento "temporal" se entrelaçam com palavras ou ideias que também subentendem o término definitivo como parte do quadro. Parece não haver maneira de se negar este fato como sendo real. 
A pergunta é: O QUE FAZEMOS COM ESTA PROFECIA?
 Aqui, simplesmente só é possível oferecer umas poucas sugestões:
1- Precisamos aprender que os quadros sobre o futuro são exatamente isso,  ou seja, quadros. Os quadros expressam a realidade, mas eles mesmos não devem ser confundidos com a realidade, nem é preciso que os pormenores de cada quadro sejam necessariamente "cumpridos" de alguma forma específica. "Sendo assim, não devemos obrigatoriamente esperar um cumprimento literal dos quadros referentes as calamidades na natureza como parte do julgamento de Deus, que foram proclamados pelo toque das quatro primeiras trombetas."
2- Alguns dos quadros, cujo intento era primeiramente expressar a certeza do julgamento de Deus não devem também ser interpretados de forma que venha significar a "iminência", ou pelo menos, "a iminência" da nossa perspectiva limitada. Desta forma, quando Satanás é derrotado e é "atirado para a terra" a fim de causar grandes danos à igreja, sabendo que "pouco tempo lhe resta", (Ap 12.9), este "pouco tempo", não significa forçosamente " para muito breve", mas, sim, algo muito mais semelhante a "limitado". Virá, de fato, um tempo em que ele será "preso" para sempre, mas qual dia e hora será, ninguém sabe.
3- Os quadros em que o "temporal" possui laços estreitamente vinculado com o "escatológico" não devem ser considerados como simultâneos, ainda que os próprios leitores originais os tenham entendido assim. 
A dimensão "escatológica" dos julgamentos e da salvação deve alertar-nos à possibilidade de uma dimensão 'ainda não' de muitos quadros. Do outro lado, parece não haver regras fixas de como devamos isolar o elemento que ainda está no futuro, ou de compreendê-lo. Algo do qual precisamos, e muito, tomar cuidado de não fazer, é dedicar tempo em demasia especulando sobre como quaisquer dos "nossos eventos contemporâneos" possam ser encaixados nos quadros do Apocalipse. 
Em momento algum, o livro pretendeu profetizar a existência de países como China ou Russia, por exemplo, assim como nos "fornecer pormenores literais da conclusão da história".
4- Provavelmente, em muitas ocasiões a presença de uma segunda dimensão ainda a ser cumprida possa ser observada nos quadros apresentados, mas, precisamos sempre lembrar que, não nos foram entregues chaves para nos ensinar a defini-las. Quanto a isto, o próprio Novo Testamento se comporta com certa dose de ambiguidade. 
A figura do "anti Cristo", por exemplo, é especialmente difícil. Nos escritos de Paulo (2 Ts 2.3,4), ele é uma figura específica; no Apocalipse 13 e 14, ele vem na forma de Imperador Romano. Nos dois casos, se aparecimento parece ser escatológico, [pode ser que sim, pode ser que não, nada que o comprove]. No entanto, em 1 João, tudo isto é reinterpretado de um modo generalizado para referir-se aos "assim-chamados gnósticos" que estavam invadindo a igreja.
A pergunta é: Como, pois, devemos NÓS entender a figura no que diz respeito ao nosso próprio futuro?
No contexto da história, a igreja tem visto (em certo sentido, corretamente) certa variedade de governantes mundiais como sendo uma expressão de um "anticristo". Hitler, Idi Amim, Saddam Hussein, certamente são pessoas a se encaixarem neste perfil no decorrer do século XX, e analisando neste sentido, muitos anti- cristos continuam a vir, como a Bíblia mostra em "1João 2.18".
Mas o que se diz de uma figura de alcance mundial que acompanhará os últimos os derradeiros eventos do fim? Mas, Apocalipse 13 -14, não nos diz que tais coisas hão de acontecer? 
Nossa própria resposta é: não necessariamente, porém, estamos suscetíveis à possibilidade. É a ambiguidade dos próprios textos do Novo Testamento que leva à nossa cautela, e à nossa falta de certeza dogmática. 
5- Os quadros que objetivavam ser totalmente escatológicos ainda devem ser entendidos assim. Portanto, os quadros mostrados em 11.15-19 e 19.1 - 22.1, são inteiramente escatológicos. Devemos considerá-los como fazendo parte da Palavra de Deus ainda a ser cumprida.
Assim como a palavra inicial da Escritura fala de Deus e da criação, assim também a palavra final fala de Deus e da consumação. 
Se há algumas ambiguidades para nós, quanto a como todos os pormenores devem ser desenvolvidos, não há ambiguidade quanto à certeza de que Deus irá realizar tudo, no seu próprio tempo e conforme sua própria maneira. Tal deve servir a nós, como serviu para os leitores originais, ou seja, para advertir e encorajar.

Até que Ele venha, vivemos o futuro no presente, e assim fazemos por meio de ouvir e obedecer a sua Palavra. Virá, no entanto, um dia em que livros tais como este já não será necessário, por que: "Não ensinará jamais cada um ao seu próximo... porque todos me  conhecerão" (Jr 31.34).

Com João, e o espírito, e a Noiva dizemos: AMÉM, VEM, SENHOR JESUS.!

             
                         FIM DA QUINTA PARTE!

PARTE 1 - A NATUREZA DO APOCALIPSE.
PARTE 3 - O CONTEXTO HISTÓRICO.
APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 3!
PARTE 4 - O CONTEXTO LITERÁRIO.
APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 4!

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Fonte bibliográfica: Livro Entendes o que Lês?, publicação da editora 
"Vida Nova": Edição de 1997 reimprimido em 2008.
Autores: Gordon D. Fee & Douglas Stuart com apêndice por Ênio R. Mueller.
Adaptação de Fabio S. Faria, das páginas 217 a 232.






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sábado, 20 de dezembro de 2014

APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 4!



                  <<<<NÃO HÁ NESTE ESTUDO QUALQUER PRETENSÃO DE SOLUCIONAR EM TODOS OS NÍVEIS AS DIFICULDADES EXISTENTES NA INTERPRETAÇÃO DESTE LIVRO.                        
O OBJETIVO É APENAS O DE APRESENTAR ALGUMAS SUGESTÕES HERMENÊUTICAS E EXEGÉTICAS CONSTANTES NO LIVRO ''ENTENDES O QUE LÊS?" PUBLICADO PELA EDITORA VIDA NOVA, DE AUTORIA DOS PROFESSORES GORDON D. FEE E DOUGLAS STUART. >>>>

QUARTA PARTE
                                                           O CONTEXTO LITERÁRIO!
  
                         Para  entender qualquer das visões específicas no Apocalipse, é especialmente importante não somente compreender a situação histórica e o significado das figuras [as questões do conteúdo] como também perguntar:
"Como esta visão específica funciona no livro como um TODO? "

Neste aspecto, o Apocalipse é bem mais semelhante às Epístolas do que aos Profetas, pois estes últimos são oráculos individuais, nem sempre com um propósito funcional claro com relação uns aos outros.  Já nas Epístolas, o foco é "pensar por parágrafos", porque cada parágrafo se constitui em um bloco que irá edificar o argumento inteiro, e assim também acontece no livro do Apocalipse. O livro é uma totalidade global, com estrutura criativa, onde cada visão faz parte integrante da totalidade.
Visto que o Apocalipse é o único livro do seu tipo no Novo Testamento, se torna importante que o interpretemos seguindo por sua totalidade, ao invés de simplesmente seguir um ou outro modelo. Deve se notar, naturalmente, que a estrutura básica fica clara e não é assunto de debate; enquanto isto as diferenças irão entrar na maneira de as pessoas interpretarem a estrutura. 
O livro desdobra-se como um grande drama, onde as primeiras cenas são responsáveis por preparar o palco, além de definir o elenco de personagens, e as cenas posteriores precisam das primeiras para podermos seguir o enredo.
                  Os capítulos 1 a 3 preparam o palco, e também nos apresentam a maioria dos "personagens". 
O primeiro personagem apresentado é o próprio João (1.1-11), e ele a cada passo será o narrador dos acontecimentos. [foi exilado pela sua fé em Cristo, e tinha o dom profético para ver que a presente perseguição era apenas uma precursora daquilo que haveria de acontecer.]
O segundo personagem é Cristo (1.12-20) a quem João descreve em figuras magníficas derivadas principalmente de Daniel capítulo 10 [ é descreve como Senhor da história e Senhor da igreja, ou seja, Deus não perdeu o controle, a despeito da presente perseguição, pois é Cristo quem segura as chaves da morte e do Hades]. 
O terceiro personagem é a igreja (2.1 a 3.22). Em cartas para sete igrejas reais, porém também representativas, João encoraja e adverte a igreja. Há uma necessidade do entendimento da perseguição atual, mas sempre tendo em mente haver uma promessa que ela irá continuar no futuro. Também, há muitas desordens internas ameaçando o bem estar destas igreja. Por isso, para aqueles que vencem, há as promessas da glória final.
Os capítulos 4 e 5 também auxiliam na preparação do palco. No quatro, por intermédio de visões empolgantes, acompanhadas por adoração e louvor a igreja é informada de que Deus em majestade soberana. Já no cinco, João relembra aos cristãos que porventura tenham dúvidas sobre a presença de Deus agindo em prol deles, que o "Leão" é um "Cordeiro", e esse "Cordeiro" redimiu a humanidade através de sofrimento.
Os capítulos 6 e 7 iniciam o desdobrar do próprio drama. Por três vezes no livro, as visões são apresentadas em conjuntos de sete, e nestes conjuntos, se nota estruturas preparadas cuidadosamente (capítulos 6- 7; 8-11; 15-16). Em cada caso, os quatro primeiros itens são colocados juntos formando um só quadro; em 6 - 7 e 8 -11, os dois itens seguintes também vão juntos para apresentar dois lados de outra realidade, e estes, por sua vez, tem seu curso interrompido por um  interlúdio de duas visões, antes que haja a revelação do sétimo item. 
Nos capítulos 15 e 16, os três finais constituem um único agrupamento sem o interlúdio
Veja como isto funciona no capítulo 7:
- cavaleiro branco = conquista.
2 - cavaleiro vermelho = guerra.
3 - cavaleiro preto = fome.
4 - cavaleiro amarelo = morte.
5 - a pergunta dos mártires: "até quando?".
6 - o terremoto ( o julgamento de Deus): "quem é que pode suster-se?"
                 a. - 144.000 selados
                 b. - uma grande multidão.
7 - a ira de Deus = as sete trombetas dos capítulos 8 - 11.

Os capítulos 8 - 11 revelam o conteúdo do julgamento divino. As 4 primeiras trombetas indicam que parte deste julgamento envolverá grandes desordens na natureza, enquanto, a quinta e sexta trombeta indicam que o julgamento também virá das hordas bárbaras e de uma grande guerra. Após o interlúdio, exprimindo o enaltecimento que Deus faz das suas "testemunhas", ainda que morram, a sétima trombeta soa a conclusão: "O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos".
Desta maneira, os cristãos foram levados através do sofrimento da igreja e do julgamento divino contra seus inimigos, para o triunfo final de Deus.
As visões, no entanto, não se acabaram, e nos capítulos 8 - 11, recebemos o quadro global, já nos capítulos 12 - 22, há um oferecimento dos pormenores daquele julgamento e triunfo. 
O que aconteceu é um pouco similar a visão que temos ao olhar para a obra de Miguel Ângelo na Capela Sistina: "no início ficamos muito impressionados diante da vista da capela inteira, e somente mais tarde, ao inspecionar com cuidado os detalhes individuais é que poderemos notar quanta magnificência entrou em cada pormenor".

O capítulo 12 é a chave teológica do livro. Em duas visões, nos é informado acerca da tentativa de Satanás no sentido é destruir a Cristo, e da derrota que lhe é impingida nesta tentativa. Desta forma, dentro do arcabouço neo testamentário recorrente do Já/Ainda Não, Satanás é revelado como sendo um inimigo derrotado -"Já"-, cuja derrota final "Ainda Não" chegou. Portanto, há regozijo porque "agora veio a salvação" (12.10), mas ainda há "ais" para a igreja porque Satanás sabe que seu tempo está limitado e está tirando vingança contra o povo de Deus. 

Os capítulos 13 - 14 vão, então, mostrar como, para a igreja de João, aquela vingança tomou a forma do Império Romano com seus imperadores e suas exigências de obterem homenagem religiosa. Porém, assim como o Império, também seus imperadores estavam condenados. [capítulos 15 - 16]. 
O livro termina como uma "história de duas cidades" [capítulos 17 - 22]. A cidade terrestre (Roma) está condenada por sua participação na perseguição do povo de Deus, e após ela, a cidade de Deus virá do céu, e então, o povo perseguido habitará eternamente. 

OBS- Dentro desta estrutura global, várias visões apresentam consideráveis dificuldades, não só quanto ao significado do seu conteúdo como também à sua função no contexto. Para estas questões, sempre é preciso que se faça uma consulta a bons "livros" - comentários bíblicos - .   

                                    
                         FIM DA QUARTA PARTE!


PARTE 1 - A NATUREZA DO APOCALIPSE 
PARTE 3 - O CONTEXTO HISTÓRICO
APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 3!
PARTE 5 - AS QUESTÕES HERMENÊUTICAS!

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Fonte bibliográfica: Livro Entendes o que Lês?, publicação da editora 
"Vida Nova": Edição de 1997 reimprimido em 2008.
Autores: Gordon D. Fee & Douglas Stuart com apêndice por Ênio R. Mueller.
Adaptação de Fabio S. Faria, das páginas 217 a 232.  







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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 3!


                  <<<<NÃO HÁ NESTE ESTUDO QUALQUER PRETENSÃO DE SOLUCIONAR EM TODOS OS NÍVEIS AS DIFICULDADES EXISTENTES NA INTERPRETAÇÃO DESTE LIVRO.                        
O OBJETIVO É APENAS O DE APRESENTAR ALGUMAS SUGESTÕES HERMENÊUTICAS E EXEGÉTICAS CONSTANTES NO LIVRO ''ENTENDES O QUE LÊS?" PUBLICADO PELA EDITORA VIDA NOVA, DE AUTORIA DOS PROFESSORES GORDON D. FEE E DOUGLAS STUART. >>>>

TERCEIRA PARTE  

                             OS CONTEXTOS: HISTÓRICO E LITERÁRIO!
         Assim como na maioria dos demais gêneros, também no Apocalipse, a melhor maneira para começar a "exegese" é com uma reconstrução provisória da situação em que foi escrito. A sugestão do roteiro a ser seguido para que se faça bem este trabalho é a seguinte:
"procure ler o livro do começo ao fim numa só assentada; leia-o procurando o quadro geral, Não procure entender tudo. Deixe que sua própria leitura seja um acontecimento, por assim dizer, ou seja, permita as visões rolarem, passando em frente aos seus olhos como ondas na praia, uma após outra, até ter a sensação do livro e de sua mensagem."

Em outra vez, [na segunda leitura] faça notas mentais, ou anotações breves por escrito acerca do autor e de seus leitores. Em uma terceira leitura anote especificamente todas as referências indicativas de que os leitores de João são companheiros de tribulação (1,9). 
Estes são os indicadores históricos fundamentais.
Por exemplo: Nas sete cartas ter atenção especial para 2.3, 8-9,13; e 3.10, além da expressão repetida "ao vencedor". O quinto selo (6.9-11), logo após a devastação operada pelos quatro cavaleiros, revela os mártires cristãos, que haviam sido mortos por causa da "palavra e do testemunho" (justamente porque João está no exílio em 1.9). Em 7.14, a grande multidão, que nunca mais sofrerá (7.16), "vem da grande tribulação". O sofrimento e a morte mais uma vez têm ligação com dar "o testemunho de Jesus" em 12.11 e 17. E nos capítulos 13 a 20, o sofrimento e a morte são especificamente atribuídos à "besta" (13.7; 14.9-13; 16.5-6; 18.20,24; 19.2).

         Este tema é a chave para compreender o "contexto histórico", e explica plenamente a ocasião e o propósito do livro. O próprio João estava no exílio por causa de sua fé. Havia muitos outros também passando por sofrimentos - um até morrera (2.13) - pelo "testemunho de Jesus". Enquanto joão estava no "Espírito", chegou a reconhecer que o sofrimento presente, pelos quais eles estavam passando, era apenas o começo dos "ais" para aqueles que se recusassem a "adorar a besta". Ao mesmo tempo, não estava totalmente certo que a totalidade da igreja estivesse pronta para aquilo que jazia no seu futuro. Assim sendo, escreveu esta "profecia".
Lendo com atenção ver-se-á que os temas principais são abundantemente claro: "a igreja e o estado estão seguindo direções cujo final será a colisão, e aos olhos de muitos parecerá que a vitória inicial pertence ao estado. Deste modo, explica para a igreja que o sofrimento e a morte são componentes de um futuro imediato; e isto, ficará bem pior, antes de poder melhorar (6.9-11)".
João está grandemente preocupado no sentido de eles não capitularem em tempo de opressão (14.11-12; 21.7-8). A palavra é profética, porém também é de encorajamento, Deus, pois, está controle de todas as coisas.
Por conseguinte, Cristo segura as chaves da história, e segura as igrejas em suas mãos (1.17-20). O triunfo da igreja, portanto, acontecerá até mesmo através da morte (12.11). Deus finalmente derramará "sua ira" sobre os que causaram aquele sofrimento e morte, e dará descanso eterno para aqueles que permanecerem fiéis. Naquele contexto, naturalmente, a inimiga a ser julgada era Roma. 

Neste ponto, é importante se observar que uma das principais chaves para interpretar o Apocalipse é a distinção feita por João entre duas palavras, ou ideias cruciais: TRIBULAÇÃO E IRA. 
Se as confundirmos e as fizermos referir-se à mesma coisa, ficaremos em situação desesperadamente confusa acerca daquilo que está sendo dito.

A tribulação (o sofrimento e a morte) nitidamente faz parte daquilo que a igreja estava padecendo e ainda padeceria. A ira de Deus, por outro lado, é o julgamento que Ele derramará sobre aqueles que afligiram seu povo. 
Está claro em todos os tipos de contextos no Apocalipse, que o povo de Deus, NÃO terá de padecer da terrível ira de Deus quando for derramada sobre os inimigos deles, mas fica igualmente claro que realmente sofrerão às mãos dos seus inimigos. 
Esta distinção, aqui notada, está exatamente de acordo com o restante do Novo Testamento, tal como é mostrado em 2 Tessalonicenses 1.3,10, onde Paulo "gloria-se" das "perseguições e tribulações" que os tessalonicenses sofrem, mas também não deixa de notar que Deus finalmente julgará os "que vos atribulam" (a forma verbal de atribulação).
Outro ponto a ser observado com todo cuidado é como a abertura dos selos 5 e 6 (6.9-17) coloca em evidência as duas questões fundamentais no livro. 
a- No quinto selo, os mártires cristãos exclamam: 
"Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas nem vingas nosso sangue dos que habitam sobre a terra?"  
A resposta é dupla:
1- devem esperar um pouco mais, porque haverá ainda muitos outro  mártires. 
2- apesar disto, o julgamento é absolutamente certo, conforme indica o sexto selo.
b- No sexto selo, quando chega o julgamento divino, os julgados exclamam:
                    "Quem é que pode suster-se?"
A resposta é dada no capítulo 7:
 - Aqueles que foram selados por Deus, que "lavaram suas vestiduras, e as alvejaram no sangue do Cordeiro".

                                            FIM DA TERCEIRA PARTE!

 PARTE 1 - A NATUREZA DO APOCALIPSE 
 APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 1!
PARTE 2 - A NECESSIDADE DA EXEGESE

APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 2!

PARTE 4 - O CONTEXTO LITERÁRIO
PARTE 5 - AS QUESTÕES HERMENÊUTICAS!

Fonte bibliográfica: Livro Entendes o que Lês?, publicação da editora 
"Vida Nova": Edição de 1997 reimprimido em 2008.
Autores: Gordon D. Fee & Douglas Stuart com apêndice por Ênio R. Mueller.
Adaptação de Fabio S. Faria, das páginas 217 a 232.  
                 
       

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sábado, 13 de dezembro de 2014

APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 2!


                     <<<<NÃO HÁ NESTE ESTUDO QUALQUER PRETENSÃO DE SOLUCIONAR EM TODOS OS NÍVEIS AS DIFICULDADES EXISTENTES NA INTERPRETAÇÃO DESTE LIVRO.                        
O OBJETIVO É APENAS O DE APRESENTAR ALGUMAS SUGESTÕES HERMENÊUTICAS E EXEGÉTICAS CONSTANTES NO LIVRO ''ENTENDES O QUE LÊS?" PUBLICADO PELA EDITORA VIDA NOVA, DE AUTORIA DOS PROFESSORES GORDON D. FEE E DOUGLAS STUART. >>>>

SEGUNDA PARTE
                                      A NECESSIDADE DA EXEGESE:

                 Em muitos momentos torna-se maçante a insistência em dizer sobre a necessidade da "boa exegese" para o livro de Apocalipse, porém esta insistência é resultado da FALTA de princípios exegéticos sadios, o que faz ser rotina a ocorrência de tanta "interpretação má e especulativa" do Apocalipse. 
Portanto, este estudo, tendo em mente o Apocalipse, se propõe simplesmente a lembrar aos leitores alguns dos "princípios exegéticos básicos", tais como:

1- A primeira tarefa da exegese do Apocalipse é procurar a intenção original do autor, e portanto, do Espírito Santo. 
O mesmo padrão aplicado na exegese das "epístolas", também deve ser considerado em Apocalipse em relação ao significado primário, ou seja, aquilo que João pretendeu que fosse, com toda a certeza foi o significado entendido por seus leitores. 
"Além do mais, é preciso lembrar que os leitores do primeiro século tiveram uma grande vantagem sobre os dos séculos posteriores - inclusive sobre nós -que é a familiaridade com seu próprio "contexto histórico" (aquilo que levou o livro a ser escrito em primeiro lugar), somada a uma maior convivência com as formas e figuras apocalípticas."

2- Visto que o Apocalipse é deliberadamente "profético', não devemos fechar a porta à possibilidade de haver um sentido secundário, inspirado pelo Espírito Santo, mas não plenamente percebido pelo autor ou pelos seus leitores. Apesar disto, mesmo que haja este segundo sentido, é algo que está além da exegese na área mais ampla da hermenêutica. Portanto, a tarefa primordial  a se considerar aqui, é compreender o que João pretendia que seus leitores originais ouvissem e compreendessem.

3- É preciso tomar cuidados especiais para não haver qualquer tipo de abuso  do conceito da "analogia da Escritura" na exegese do Apocalipse. A analogia da Escritura significa que a Escritura deva ser interpretada à luz do restante da Escritura. Sustenta-se que isto é evidente em si mesmo, com base na posição de que a Escritura toda é a Palavra de Deus, e que tem Deus como sua derradeira origem. Mesmo assim, não deve ser orientado de tal maneira que as pessoas possam vir a fazer de outras partes das Escrituras as chaves hermenêuticas para destravar o Apocalipse. 
À vista disso, é coisa aceitável reconhecer o novo uso que João faz das figuras mostradas por Daniel e Ezequiel, ou ver as analogias nas figuras apocalípticas de outros textos. No entanto, não se pode considerar correto a afirmativa feita por algumas "escolas de interpretação" de que os leitores de João haviam lido o Evangelho de Mateus ou 1 e 2 Tessalonicenses, e então tendo por base estes textos tiveram o privilégio de obter certas "chaves" para a compreensão daquilo que João escrevera. Por este motivo não se pode esquecer que: quaisquer chaves para a interpretação do Apocalipse devem ser intrínsecas ao texto do próprio Apocalipse, ou seja, da forma disponível aos leitores originais, dentro do seu próprio contexto histórico". 

4- Por causa da natureza apocalítica/profética do livro, há algumas dificuldades adicionais no nível exegético, especificamente no que diz respeito à linguagem figurada. Neste caso algumas sugestões são necessárias ser feitas:

a- A pessoa deve ser sensível ao valioso pano de fundo de ideias que entrou na composição do Apocalipse. Estas ideias, assim como as figuras de linguagem tem como origem principal o Antigo Testamento, porém João também fez uso de quadros da apocalíptica, e até mesmo da mitologia antiga. É muito importante a observação que, embora esses quadros derivassem de uma variedade de fontes, não significavam necessariamente o que significavam nas suas fontes, "Foram despedaçados e transformados sob a inspiração e assim harmonizados nesta 'nova profecia'.

b- A linguagem figurada apocalíptica é expressada por vários tipos. Em alguns casos, as figuras, tais como o asno e o elefante nas charges americanas, são constantes. A "besta saindo do mar", por exemplo, parece ser uma figura padronizada para um império mundial, e não para um soberano individual. Por outro lado, as figuras são instáveis: O "leão" da tribo de Judá acaba sendo realmente um "cordeiro" (Ap 5.5-6) - o único leão que há no Apocalipse. A mulher no capítulo 12 é nitidamente uma figura positiva, já a mulher do capítulo 17 é má.
De modo semelhante, algumas figuras claramente se referem a coisas específicas. Os sete candeeiros em Ap 1.12-20 são reconhecidos como sendo as sete igrejas, e o dragão no capítulo 12 é Satanás. Já, pelo outro lado, muitas das figuras são provavelmente gerais. Os quatro cavaleiros do capítulo 6,são um bom exemplo, pois provavelmente não representam qualquer expressão específica de conquista, guerra, fome, e morte, mas, sim representam esta expressão caída da igreja (6.9-11) que, por sua vez, será uma causa do julgamento divino (6.12-17). 

A lembrança destes "princípios exegéticos básicos" foram uma forma de mostrar que as figuras são a parte mais difícil da tarefa exegética. Por esta causa, duas considerações [SUGESTÕES] adicionais são especialmente importantes:

c- Quando o próprio João interpreta as suas próprias figuras de linguagem, estas figuras interpretadas devem ser sustentadas com segurança, e devem servir de ponto de partida para compreender outras. 
Temos seis de tais figuras interpretadas: Aquele que era semelhante a filho de homem (1.17-18) é Cristo, o único que "estava morto, mas eis que  está vivo pelos séculos dos séculos". Os candeeiros de ouro (1.20) são as sete igrejas. As sete estrelas (1.20) são os sete anjos, ou mensageiros, das igrejas (infelizmente, isto não fica claro, por causa do uso do termo anjo, que pode em si mesmo ser ainda outra figura de linguagem). O grande dragão (12.9) é Satanás. As sete cabeças (17.9) são os sete montes nos quais a mulher está assentada (também pode ser sete reis, tornando-se assim, uma figura fluida). A meretriz (17.18) é a grande cidade, que claramente indica Roma.

d- Devemos entender as visões como "todos", e não forçar alegoricamente todos os pormenores.
Nesta questão, as visões são como as parábolas. A visão como um todo está procurando dizer alguma coisa; os pormenores são ou (1) para o efeito dramático (6.12-14) ou (2) para acrescentar ao quadro da totalidade de maneira tal, que os leitores não viessem a se enganar quanto aos pontos de referência (9.7-11).
Sendo assim, os detalhes de o sol tornar-se negro como saco de crina e as estrelas caindo como figos verdes não "significam" coisa alguma.  Simplesmente tornam a visão do terremoto mais impressionante. 
Em 9.7-11, no entanto, os gafanhotos com coroas de ouro, rostos de homens, e cabelos longos como de mulheres ajudam a preencher o quadro de tal maneira que os leitores originais dificilmente poderiam ter-se enganado quanto àquilo que estava em oco, ou seja, as hordas dos bárbaros nas orlas externas do Império Romano.

5- Um último lembrete: "Os apocalipses em geral, e o Apocalipse de João em especial, raras vezes pretendem oferecer uma narrativa detalhada e cronológica do futuro. A mensagem deles tende a transcender tal tipo de preocupação, e no caso de João, sua maior preocupação é que a despeito das aparências atuais, Deus está controlando a história e a igreja. Mesmo que o sofrimento venha a ser uma experiência desagradável e aflitiva, e a morte um tormento cruel, a igreja será triunfante em Cristo, que julgará seus inimigos e salvará seu povo. 
Portanto, todas as visões devem ser vistas nos termos desta preocupação maior.
                                 
                                                 Fim da segunda parte!

PARTE 1 - A NATUREZA DO APOCALIPSE 
 APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 1!
PARTE 3 - O CONTEXTO HISTÓRICO!
PARTE 4 - O CONTEXTO LITERÁRIO
PARTE 5 - AS QUESTÕES HERMENÊUTICAS!

Fonte bibliográfica: Livro Entendes o que Lês?, publicação da editora 
"Vida Nova": Edição de 1997 reimprimido em 2008.
Autores: Gordon D. Fee & Douglas Stuart com apêndice por Ênio R. Mueller.
Adaptação de Fabio S. Faria das páginas 217 a 232.



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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 1!



                       <<<<NÃO HÁ NESTE ESTUDO QUALQUER PRETENSÃO DE SOLUCIONAR EM TODOS OS NÍVEIS AS DIFICULDADES EXISTENTES NA INTERPRETAÇÃO DESTE LIVRO.                        
O OBJETIVO É APENAS O DE APRESENTAR ALGUMAS SUGESTÕES HERMENÊUTICAS E EXEGÉTICAS CONSTANTES NO LIVRO ''ENTENDES O QUE LÊS?" PUBLICADO PELA EDITORA VIDA NOVA, DE AUTORIA DOS PROFESSORES GORDON D. FEE E DOUGLAS STUART. >>>>

Ao se fazer a interpretação da Bíblia, a "exegese" deve vir em primeiro lugar, no entanto, no caso deste livro, a "exegese' é especialmente crucial.
 É preciso também se observar que este é um livro sobre o qual muitos livros e panfletos populares têm sido escritos, e em quase todos eles não é feito qualquer tipo de "exegese". Normalmente vão direto para a "hermenêutica", e esta usualmente toma a forma de especulações fantasiosas, que o próprio João como autor nunca poderia ter pretendido ou compreendido.

PRIMEIRA PARTE:  
                                    'A NATUREZA DO APOCALIPSE'.
                                          
                                             Assim como o é para a maioria dos demais gêneros bíblicos, a primeira chave exegética a ser usada em apocalipse, é examinar em que tipo de LITERATURA ele se encaixa. No caso específico deste livro há alguns tipos diferentes de problemas a ser enfrentado, pois o "Apocalipse" é uma combinação sem igual, finamente harmonizada de três tipos literários distintos: O APOCALÍPTICO, A PROFECIA, E A CARTA. Além disto, o APOCALÍPTICO, a base principal deste livro, é uma forma literária não existente em nossos dias. A respeito dos outros livros da Bíblia, ainda que haja alguma diferença em relação aos nossos próprios exemplos, somos possuidores da compreensão básica daquilo que é uma epístola ou uma narrativa, um salmo ou um provérbio. Mas,  simplesmente, no caso da "apocalíptica" não possuímos nada, o que faz com que seja especialmente importante, neste caso, uma visão nítida do tipo literário com que estamos lidando.


O APOCALIPSE COMO APOCALÍPTICA; 
O nome "Apocalipse" [lit. Revelação] é uma descrição do gênero literário que recebe este nome, e representa apenas um -- embora muito especial, sem dúvida alguma -- das várias dezenas de apocalipses que eram bem conhecidos tanto pelos judeus, quanto pelos cristãos desde cerca de 200 a.C até 200 d.C. Para nós é muito importante saber, que mesmo existindo numa variedade de tipos, estes apocalipses não canônicos possuem em relação ao Apocalipse, canônico, algumas características em comum, como mostraremos a seguir: 

1- A literatura vétero-testamentária, especialmente conforme a encontrada em Ezequiel, Daniel, Zacarias e em alguns trechos de Isaías se constitui na raiz mestre da apocalíptica. De acordo com alguns casos específicos da literatura profética, o foco da "apocalíptica" era o julgamento e a salvação vindoura, mas apesar de ter nascido em meio a perseguições ou em um tempo de opressão, a grande preocupação da "apocalíptica" já não era com a atividade de Deus DENTRO da história. Os escritores dos "apocalipses" aguardavam exclusivamente o tempo em que Deus levaria a história a um FIM violento e radical, um fim que significaria o triunfo da justiça e o julgamento final de todo o mal.
2- Os "apocalipses" diferentemente da maioria dos livros proféticos, são obras literárias desde o início. Enquanto os profetas eram porta-vozes de Deus, cujos oráculos falados foram posteriormente registrados por escrito e colecionados em um livro, um "apocalipse" é uma forma de literatura possuindo uma estrutura e forma escrita. EX: João em 1,19 recebe a ordem: "escreve, pois, as coisas que viste", ao passo que os profetas foram ordenados a falar aquilo que ouviram ou viram.
3- Com maior frequência, a "matéria" da apocalíptica é apresentada na forma de visões e sonhos, sua linguagem é enigmática ( os sentidos são ocultos), e simbólica. Por essa causa a maioria dos " apocalipses" continha dispositivos literários cujo objetivo era o de poder dar ao livro uma impressão da mais extrema antiguidade. 
O mais importante destes dispositivos era a "pseudonimidade", ou seja, transmitia ao leitor a aparência de ter sido escrito por personagens antigas [Enoque, Baruque, Esdras, etc] que recebiam a ordem de SELAR tudo para se revelar em uma data posterior, e "este dia futuro" sendo, naturalmente, a época em que o livro estava sendo escrito e lido. 
4- As figuras de linguagem da "apocalíptica" frequentemente são forma de fantasia, e não realidade. Por contraste, os profetas não-apocalípticos também faziam uso regular da linguagem simbólica, mas rotineiramente envolviam figuras reais, como, por exemplo, O SAL (Mt 5,13); pombas (Os 7,11), pães semi-assados (Os 7,8), etc. Já a maior parte das figuras usadas na "apocalítica", pertence ao mundo da fantasia. Ex: uma besta com dez chifres e sete cabeças, uma mulher vestida do sol, gafanhotos com caudas de escorpiões e com cabeças humanas, etc,. Mesmo a fantasia não aparecendo precisamente nos itens citados, - pois, sabemos o que são bestas, chifres, caudas, escorpiões, - ela é nitidamente mostrada na combinação sobrenatural destes elementos.
5- Por serem literários, a maioria dos "apocalipses" eram muito formalmente estilizados, ou seja, recebiam um aspecto decorativo tal como dividir o tempo e os eventos em pacotes bem organizados, além de uma grande estima pelo uso simbólico dos números. Como consequência, o produto final normalmente tem as visões em conjuntos cuidadosamente dispostos, frequentemente numerados, e estes conjuntos, quando são unidos expressam alguma coisa (ex. julgamento) sem necessariamente fazer ou sugerir, que cada quadro separado venha seguir imediatamente o anterior. 


O apocalipse de João se enquadra perfeitamente em todas as características da "apocalíptica", porém, há UMA onde se nota certa diferença específica, e esta única diferença é tão importante, que faz de alguma maneira o "apocalipse" de João pertencer a um mundo inteiramente diferente. A característica é que: O APOCALIPSE DE JOÃO NÃO É PSEUDONÍMICO. Neste ponto, João não sentia necessidade de seguir a fórmula regular e usual. Se deixou ser reconhecido pelos seus leitores, e através das sete cartas [caps. 2 e 3], falou a igrejas conhecidas da Ásia Menor, que eram suas contemporâneas e "companheiras na tribulação". Além disto, lhe foi ordenado: "NÃO SELES as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo" (22,10).



O APOCALIPSE  COMO PROFECIA: 
A principal razão para que o "apocalipse canônico " não seja "pseudonímico" muito provavelmente esteja na forma como João entendia o fim dos tempos, a forma do: SENDO JÁ/AINDA NÃO! 
                [ Para entender o real significado de "sendo já/ainda não" precisamos primeiramente saber que o arcabouço básico do NT  é escatológico.   
A escatologia tem a ver com o fim, assim que deus encerrar esta era. O pensamento da maioria dos judeus nos dias de Jesus era escatológico, ou seja, imaginavam estar vivendo na última virada do tempo, quando, então, Deus interviria na história dando um fim a esta era e introduzindo a era do "porvir". 
Quando João Batista anunciou que a vinda do fim estava muito próxima, e batizou o Messias de Deus, o fervor escatológico alcançou a temperatura máxima, pois, o Messias estava por perto e seria ele o introdutor da nova era do Espírito.(lc 3.7-17). 

Jesus veio e anunciou que o reino vindouro estava próximo, no seu ministério. Expulsou demônios, operou milagres, de livre vontade aceitou os rejeitados e pecadores, os sinais do anúncio de que o fim se iniciara.
Todos com muita atenção o observavam para ver se ele era realmente 'Aquele que havia de vir.' Quando ele foi crucificado as luzes se apagaram, mas de repente houve algo glorioso: "a ressurreição". Ao aparecer a muitos de seus seguidores, estes pensavam: "será agora a restauração do reino de Israel"?   Então ele voltou ao Pai e derramou o Espírito prometido, fazendo surgir problemas para a igreja primitiva, e que nos afetam até hoje também. A vinda do espírito em plenitude e poder, com sinais e maravilhas, e a instituição da Nova Aliança eram sinais de que a nova era chegara, mas aparentemente o final não havia chegado. 
Como entender, qual a explicação? 
A partir do sermão de Pedro em Atos 3, entre os cristãos primitivos iniciou-se o entendimento de que Jesus não viera para introduzir o fim "definitivo", mas o "começo" do fim. Perceberam que, com a morte e a ressurreição, com a vinda do Espírito, a bênção e os benefícios da vida eterna em certo sentido "JÁ" chegaram, mas em outro sentido, o fim "AINDA NÃO" aconteceu.  Vivemos então no "JÁ" mas, "AINDA NÃO" , e era esta a visão escatológica de João.]
João ao escrever o seu "apocalipse" não está simplesmente prevendo o fim. Sabe que o fim já começou com a vinda de Jesus. O advento do Espírito é para este modo de entender algo crucial. Enquanto os "apocaliptistas" anteriores escreveram em nome das figuras proféticas do passado, porque viviam na era do "Espírito Apagado" esperando pelo a promessa profética do derramamento do Espírito na nova era, João por outro lado "estava no Espírito" quando lhe foi ordenado escrever aquilo que via (Ap 1.10,11) podendo assim chamar seu livro de "esta profecia" (1.3; 22.18,19) e dizer, que o "testemunho de Jesus" em prol do que ele e as igrejas estavam sofrendo (1.9; 20.4) "é o espírito da profecia". Isto, provavelmente significa que a mensagem de Jesus, atestada por Ele e da qual João e as igrejas testificam é a evidência clara de que o Espírito profético viera.
Portanto, acima de tudo, a responsabilidade pelo fato do "apocalipse' de João ser diferente é a combinação de elementos apocalípticos e proféticos.
 De um lado o livro está escrito em moldes apocalípticos e tem a maioria das características da apocalíptica, ou seja, nasceu na perseguição, tem a intenção de falar acerca do fim  com o triunfo de Cristo e da sua Igreja, além de ser uma obra de literatura cuidadosamente construída fazendo uso de uma linguagem enigmática e de um rico simbolismo de fantasia e números. 
Por outro lado, João claramente pretende que seu "apocalipse" seja uma palavra profética à igreja. Seu livro não devia ser selado para o futuro. Era uma palavra da parte de Deus para a situação pelas quais as sete igrejas estavam passando no presente. Lembremos que "profetizar" não significa primariamente predizer o futuro, mas, sim, proclamar a palavra de Deus no presente, palavra esta que usualmente tem como seu conteúdo o julgamento e a salvação vindouros. Notemos que no Apocalipse, até mesmo as sete cartas possuem este cunho profético. Assim, temos aqui, pois, a "palavra profética" de Deus a algumas igrejas nos anos finais do século I, igrejas que estavam sofrendo perseguição de fora, além de uma visível decadência interna.
  
O APOCALIPSE COMO EPÍSTOLA: 
Finalmente, deve ser notado que esta combinação de elementos "apocalípticos e proféticos" foi colocada na forma de uma carta. 
Quando lemos por exemplo, 1.4-7 e 22.21 notaremos a presença de todas as características da forma "de carta". Além do mais, João trata seus leitores na fórmula: "primeira pessoa/segunda pessoa" [eu...vós]. Logo, na sua forma final, o Apocalipse foi enviado por João como uma carta às sete igrejas.
A importância deste fato está no aspecto ocasional, presente em todas as epístolas, e que também está presente em Apocalipse. 
Foi ocasionado pelo menos parcialmente pelas necessidades das igrejas específicas às quais foi endereçado. 
Por esta razão, para interpretarmos Apocalipse da forma correta, necessitamos primeiramente compreender seu contexto histórico original.  

FIM DA PRIMEIRA DAS CINCO PARTES NAS QUAIS ESTE ESTUDO FOI DIVIDIDO. 
PARTE 2 - A NECESSIDADE DA EXEGESE!
PARTE 3 - O CONTEXTO HISTÓRICO!
PARTE 4 - O CONTEXTO LITERÁRIO!
PARTE 5 - AS QUESTÕES HERMENÊUTICAS!

Fonte bibliográfica: Livro Entendes o que Lês?, publicação da editora 
"Vida Nova": Edição de 1997  reimprimido em 2008.
Autores: Gordon D. Fee & Douglas Stuart com apêndice por Ênio R. Mueller.
Adaptação de Fabio S. Faria das páginas 217 a 232.





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